Estar endividado pesa muito mais do que os números no extrato. Há a ansiedade quando o telefone toca, a vergonha de falar do assunto e a sensação de que cada mês começa já em falta. Por isso muita gente adia o problema, e adiar é precisamente o que o torna maior.
Sair das dívidas raramente é rápido, apesar do que prometem alguns anúncios. Mas é possível, e em Portugal existem apoios gratuitos que pouca gente conhece. Este é um plano em passos, do levantamento à negociação.
Passo 1: ponha tudo em cima da mesa
Liste todas as dívidas numa folha: a quem deve, quanto falta pagar, a taxa de juro (a TAEG), a prestação mensal e se há alguma em atraso. Inclua cartões de crédito, créditos pessoais, crédito automóvel, descobertos, compras a prestações e dívidas a familiares.
Se não tiver a certeza do que deve aos bancos, peça o mapa da Central de Responsabilidades de Crédito ao Banco de Portugal. É gratuito e mostra os créditos registados em seu nome.
Ver o total escrito costuma ser desconfortável. Também é o momento a partir do qual o problema deixa de ser uma nuvem e passa a ser uma lista com princípio e fim.
Passo 2: estanque a entrada de dívida nova
Enquanto houver meses em que as despesas são pagas com cartão de crédito ou descoberto, a lista vai continuar a crescer. Antes de acelerar pagamentos, é preciso que o orçamento mensal feche sem recorrer a crédito, mesmo que isso obrigue a cortes temporários grandes.
Guarde também uma pequena reserva, de 500 € a 1 000 €. Sem ela, o primeiro imprevisto volta a ir para o cartão.
Passo 3: escolha a ordem de pagamento
Pague sempre o mínimo de todas as dívidas. O dinheiro extra que conseguir vai para uma só, até ela desaparecer. Há dois métodos para escolher qual:
Método avalanche. Começa pela dívida com a taxa de juro mais alta. Matematicamente é o que poupa mais dinheiro em juros.
Método bola de neve. Começa pela dívida mais pequena, independentemente da taxa. Poupa menos em juros, mas dá vitórias rápidas que ajudam a manter a motivação.
Um exemplo com três dívidas:
| Dívida | Valor | Taxa aproximada | Prestação mínima |
|---|---|---|---|
| Cartão de crédito | 1 800 € | 18% | 60 € |
| Crédito pessoal | 4 500 € | 9% | 120 € |
| Crédito automóvel | 6 000 € | 7% | 150 € |
Neste caso os dois métodos coincidem no primeiro alvo: o cartão é ao mesmo tempo o mais pequeno e o mais caro. Quando acabar de o pagar, os 60 € da prestação somam-se ao valor extra e passam para a dívida seguinte. É daqui que vem o nome bola de neve.
Na dúvida, escolha o método que tem mais probabilidade de seguir até ao fim.
Passo 4: fale com os credores antes de falhar
Se percebe que não vai conseguir pagar uma prestação, contacte o banco antes do atraso. Os bancos são obrigados a ter procedimentos para prevenir o incumprimento e a analisar a situação de clientes com dificuldades. Pode ser possível alongar o prazo, ter um período de carência ou reestruturar o crédito.
Se já está em atraso, existe o PERSI, o Procedimento Extrajudicial de Regularização de Situações de Incumprimento. O banco tem de o iniciar quando há prestações em atraso e deve apresentar propostas adequadas à sua situação. Durante o procedimento tem direitos e garantias, incluindo a proteção contra ações judiciais por essa dívida enquanto o PERSI decorre.
Passo 5: peça ajuda gratuita
A RACE, Rede de Apoio ao Consumidor Endividado, reúne entidades reconhecidas pela Direção-Geral do Consumidor que dão informação, aconselhamento e acompanhamento gratuitos. Ajudam a analisar o orçamento, a perceber as propostas do banco e a negociar. A lista de entidades está no Portal do Consumidor.
Este apoio é muito diferente de empresas que prometem limpar dívidas mediante pagamento antecipado. Desconfie de quem pede dinheiro para resolver um problema de falta de dinheiro.
A consolidação de créditos compensa?
Juntar vários créditos num só pode baixar a prestação mensal e simplificar a gestão. O custo aparece no total: prazos mais longos e, muitas vezes, garantias adicionais, como a hipoteca da casa. Antes de aceitar, compare o valor total a pagar nas duas situações, e não só a prestação. E só faz sentido se o Passo 2 estiver resolvido. Consolidar e voltar a usar os cartões deixa a situação pior.
Dívidas às Finanças e à Segurança Social
Para quem trabalha por conta própria, é comum acumular IRS, IVA ou contribuições em atraso. Estas dívidas geram juros e podem levar a penhoras, por isso não devem ficar para o fim da lista. Tanto as Finanças como a Segurança Social permitem pedir planos de pagamento em prestações, nos respetivos portais. Ter um plano aprovado e cumprido permite, em muitos casos, voltar a ter a situação regularizada, o que é importante para trabalhar com clientes que pedem certidões de não dívida.
Acompanhar o progresso
Atualize a lista uma vez por mês e registe quanto falta no total. Ver o número descer é uma das melhores formas de manter o esforço. No Cofre App pode criar uma meta para cada dívida e registar os pagamentos, com a barra de progresso a mostrar o caminho feito.
Fontes
- Banco de Portugal, Portal do Cliente Bancário, PERSI
- Banco de Portugal, mapa da Central de Responsabilidades de Crédito
- Portal do Consumidor, Rede de Apoio ao Consumidor Endividado
- Portal das Finanças, planos prestacionais
Informação atualizada em 2026. Em situações de sobre-endividamento, procure o apoio gratuito da rede RACE antes de assinar qualquer acordo.