Recibos Verdes vs Empresa Unipessoal: O Que Compensa em Portugal

Abrir uma unipessoal não é automaticamente pagar menos impostos. Veja o que muda na Segurança Social, no IRS e no IRC em 2026, quanto custa manter uma empresa e em que situações a mudança faz sentido.

Recibos Verdes vs Empresa Unipessoal: O Que Compensa em Portugal

Chega uma altura em que quase todos os freelancers com trabalho estável ouvem a mesma frase: "com esse volume, já devias abrir empresa". Às vezes é verdade. Outras vezes a mudança traz mais custos e mais burocracia sem grande poupança no fim do ano.

Não há um valor mágico a partir do qual compensa. Há, isso sim, algumas perguntas que ajudam a perceber se o seu caso é um deles. Vamos por partes.

Como se paga a recibos verdes

Como trabalhador independente paga duas coisas sobre o que fatura. A Segurança Social, que fica em cerca de 15% da faturação de serviços, e o IRS, que é progressivo. No regime simplificado o IRS incide sobre 75% ou 35% do que faturou, conforme a atividade.

Para ter uma ideia do peso, pense num consultor com coeficiente de 0,75 que fatura 60 000 € num ano:

Valor aproximado
Faturação60 000 €
Segurança Social (14,98%)8 988 €
Rendimento sujeito a IRS (75%)45 000 €
IRS antes de deduções, escalões de 202611 652 €
Fica para si, antes de despesascerca de 39 360 €

O ponto que costuma pesar é a taxa marginal. Com 45 000 € de rendimento tributável, cada euro a mais já paga 43,1% de IRS, mais a Segurança Social. É aqui que a ideia de uma empresa começa a parecer atraente.

Como se paga numa sociedade unipessoal

Numa sociedade unipessoal por quotas o dinheiro percorre um caminho mais longo. A empresa fatura, paga as despesas e o que sobra é lucro, sujeito a IRC. Depois tem duas formas de trazer dinheiro para si: um salário como gerente ou dividendos.

Em 2026 o IRC é de 19%, com uma taxa de 15% sobre os primeiros 50 000 € de lucro tributável para pequenas e médias empresas. Pode ainda haver derrama municipal até 1,5%, conforme o concelho.

O salário de gerente é tributado como qualquer salário, em IRS, e tem Segurança Social de 34,75%: 23,75% pagos pela empresa e 11% descontados ao gerente. Os dividendos pagam 28% de IRS quando saem da empresa.

O que acontece a 100 € de lucro

Valor
Lucro da empresa100,00 €
IRC a 15% e derrama de 1,5%16,50 €
Fica na empresa83,50 €
Imposto se sair como dividendo (28%)23,38 €
Chega ao seu bolso60,12 €

Se retirar tudo como dividendo, o imposto total fica perto dos 40%. Não é muito diferente do que já pagaria a recibos verdes num escalão alto. A grande vantagem aparece noutro sítio: o dinheiro que fica dentro da empresa paga apenas cerca de 16,5%. Pode ser usado para equipamento, para uma reserva de tesouraria ou para investir no negócio, e só paga o resto quando sair.

Os custos que não aparecem nas simulações

Uma empresa tem obrigatoriamente contabilidade organizada e um contabilista certificado, o que significa um custo mensal fixo, mesmo nos meses sem faturação. Há declarações anuais próprias, como a Modelo 22 e a IES, e o salário de gerente obriga a processamento mensal.

Há também uma mudança de hábitos. O dinheiro da empresa deixa de ser seu. Pagar uma despesa pessoal com o cartão da empresa passa a ser um problema fiscal, uma questão que a recibos verdes não se coloca da mesma forma.

O capital social mínimo é de 1 €, por isso abrir não é caro. Manter é que tem um custo que convém somar antes de decidir.

Sinais de que pode compensar

Sinais de que ainda não compensa

Como decidir com números seus

A minha sugestão é pedir a um contabilista uma simulação com três cenários: continuar a recibos verdes, empresa com salário baixo e dividendos, e empresa com salário mais alto. Leve consigo a faturação dos últimos dois anos, as despesas reais e o valor de que precisa por mês para viver. Uma consulta destas custa bem menos do que um ano no modelo errado.

Enquanto isso, comece a registar as despesas reais do negócio separadas das pessoais. Sem esse número, qualquer comparação é um palpite.

Fontes

Taxas de 2026 (Lei n.º 73-A/2025). Os valores do exemplo são aproximados e não incluem deduções pessoais. A escolha do modelo deve ser feita com um contabilista certificado.

JF
Escrito por Julio Fernandes

Designer freelancer em Portugal e fundador do Cofre App. Escreve sobre as finanças de quem trabalha por conta própria a partir da sua experiência, com base nas fontes oficiais. Encontrou um erro? Diga-nos.

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