Chega uma altura em que quase todos os freelancers com trabalho estável ouvem a mesma frase: "com esse volume, já devias abrir empresa". Às vezes é verdade. Outras vezes a mudança traz mais custos e mais burocracia sem grande poupança no fim do ano.
Não há um valor mágico a partir do qual compensa. Há, isso sim, algumas perguntas que ajudam a perceber se o seu caso é um deles. Vamos por partes.
Como se paga a recibos verdes
Como trabalhador independente paga duas coisas sobre o que fatura. A Segurança Social, que fica em cerca de 15% da faturação de serviços, e o IRS, que é progressivo. No regime simplificado o IRS incide sobre 75% ou 35% do que faturou, conforme a atividade.
Para ter uma ideia do peso, pense num consultor com coeficiente de 0,75 que fatura 60 000 € num ano:
| Valor aproximado | |
|---|---|
| Faturação | 60 000 € |
| Segurança Social (14,98%) | 8 988 € |
| Rendimento sujeito a IRS (75%) | 45 000 € |
| IRS antes de deduções, escalões de 2026 | 11 652 € |
| Fica para si, antes de despesas | cerca de 39 360 € |
O ponto que costuma pesar é a taxa marginal. Com 45 000 € de rendimento tributável, cada euro a mais já paga 43,1% de IRS, mais a Segurança Social. É aqui que a ideia de uma empresa começa a parecer atraente.
Como se paga numa sociedade unipessoal
Numa sociedade unipessoal por quotas o dinheiro percorre um caminho mais longo. A empresa fatura, paga as despesas e o que sobra é lucro, sujeito a IRC. Depois tem duas formas de trazer dinheiro para si: um salário como gerente ou dividendos.
Em 2026 o IRC é de 19%, com uma taxa de 15% sobre os primeiros 50 000 € de lucro tributável para pequenas e médias empresas. Pode ainda haver derrama municipal até 1,5%, conforme o concelho.
O salário de gerente é tributado como qualquer salário, em IRS, e tem Segurança Social de 34,75%: 23,75% pagos pela empresa e 11% descontados ao gerente. Os dividendos pagam 28% de IRS quando saem da empresa.
O que acontece a 100 € de lucro
| Valor | |
|---|---|
| Lucro da empresa | 100,00 € |
| IRC a 15% e derrama de 1,5% | 16,50 € |
| Fica na empresa | 83,50 € |
| Imposto se sair como dividendo (28%) | 23,38 € |
| Chega ao seu bolso | 60,12 € |
Se retirar tudo como dividendo, o imposto total fica perto dos 40%. Não é muito diferente do que já pagaria a recibos verdes num escalão alto. A grande vantagem aparece noutro sítio: o dinheiro que fica dentro da empresa paga apenas cerca de 16,5%. Pode ser usado para equipamento, para uma reserva de tesouraria ou para investir no negócio, e só paga o resto quando sair.
Os custos que não aparecem nas simulações
Uma empresa tem obrigatoriamente contabilidade organizada e um contabilista certificado, o que significa um custo mensal fixo, mesmo nos meses sem faturação. Há declarações anuais próprias, como a Modelo 22 e a IES, e o salário de gerente obriga a processamento mensal.
Há também uma mudança de hábitos. O dinheiro da empresa deixa de ser seu. Pagar uma despesa pessoal com o cartão da empresa passa a ser um problema fiscal, uma questão que a recibos verdes não se coloca da mesma forma.
O capital social mínimo é de 1 €, por isso abrir não é caro. Manter é que tem um custo que convém somar antes de decidir.
Sinais de que pode compensar
- A faturação é estável e o lucro está claramente acima do que precisa para viver.
- Tem despesas reais elevadas, que a recibos verdes ficam escondidas dentro do coeficiente.
- Quer deixar dinheiro na empresa para investir ou ter uma reserva do negócio.
- Os clientes, sobretudo empresas maiores, preferem ou exigem trabalhar com uma sociedade.
- Quer limitar a responsabilidade pessoal por dívidas do negócio.
Sinais de que ainda não compensa
- Precisa de retirar quase todo o lucro todos os meses para as despesas de casa.
- A faturação oscila muito e há meses sem trabalho.
- As despesas reais são baixas e o coeficiente de 0,35 já o favorece.
- Ainda está a beneficiar do primeiro ano de isenção da Segurança Social.
Como decidir com números seus
A minha sugestão é pedir a um contabilista uma simulação com três cenários: continuar a recibos verdes, empresa com salário baixo e dividendos, e empresa com salário mais alto. Leve consigo a faturação dos últimos dois anos, as despesas reais e o valor de que precisa por mês para viver. Uma consulta destas custa bem menos do que um ano no modelo errado.
Enquanto isso, comece a registar as despesas reais do negócio separadas das pessoais. Sem esse número, qualquer comparação é um palpite.
Fontes
- Código do IRC, artigo 87.º, taxas (Portal das Finanças)
- Segurança Social, membros de órgãos estatutários
- ePortugal, criar uma empresa
Taxas de 2026 (Lei n.º 73-A/2025). Os valores do exemplo são aproximados e não incluem deduções pessoais. A escolha do modelo deve ser feita com um contabilista certificado.